por Cleber D. Graüth
*Em memória dos papéis japoneses que, atirados na água, formam um buque de flores.
Eu estava desatento, caminhando em conceitos, com a boca recheada de pólvora e açaí, mascando o non sense dos rostos e da brutalidade das horas. O fato é que não pude saudar você como eu deveria, como eu poderia, como eu gostaria, com toda pirotecnia de fogos e canções de Sade que o instante exigia, isto é, como sempre desejei, desde aquela aparição: morena, cabelos soltos, discreta e exuberante, num vestido de campesina genebrina do século XVIII... Mas o acaso nunca sancionou que nossos olhos se cruzassem, que nossos verbos se entendessem. Foi tudo tão rápido, a cena aconteceu de modo tão brutal, que eu só tive tempo de levantar uma das mãos num impulso, de mexer com as sombrancelhas atônito e sentir consternado e alucinado que aqueles segundos velozes e arrebatadores haviam fugido para sempre da minha existência, irrecuperáveis. Contudo, sua voz era para mim, finalmente só para mim, uma doce melodia quase inaudível. Entregue as alegrias da memória, recrio você agora, em câmera lenta, caminhando do meu lado, olhar duvidoso, sua estatura de menina fogosa, linda!...
3 comentários:
Simplesmente lindo, talvez por estar desatento e não a procura...rsrrssr
Esteja certo que a sua convicção é a mais poderosa arma para influenciar.
Rs..., já é difícil acontecer quando menos esperamos e, ainda por cima, ocorre de não estarmos bem...
Mesmo assim, é um começo...
Beijos,
Gostei daqui... seguindo!
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